Nós vimos nascer o pranto
do cano de uma espingarda
entalados numa farda
e vendidos em leilão
abafando a nossa raiva
fomos carne p´ra canhão
ainda sabemos do fogo
do sangue e da cicatriz
cantadores da tristeza
dos fados deste país
e nós também fomos a festa
quando se acabou o luto
quando a terra deu o fruto
da semente da revolta
quando as vozes se juntaram
e a gente cantou à solta
quando a manhã se enfeitou
das cores que a gente quis
cantadores da ousadia
dos fados deste país
agora
nossos olhos tão cansados
de ver o tempo a fugir
já mal sabemos sorrir
vamos perdendo o cabelo
e as rugas vão nascendo
como fios de um novelo
mas a esperança nunca morre
p´ra quem queira ser feliz
cantadores da incerteza
dos fados deste país.
JOSÉ MEDEIROS